Rota Dos Baleeiros

 

Introdução: Breve Nota Histórica

Essencialmente na ilha do Pico, sobretudo depois das fortes erupções vulcânicas de 1718 a 1720, a emigração, que antes se exercia  de forma legal para o Brasil, passou a exercer-se de “salto”.

Isso foi possível uma vez que durante os meses de Verão começaram a aparecer nos mares dos Açores as chamadas “baleeiras”, provenientes das costa leste do Estados Unidos da América.

Aportavam no porto da Horta para fazer aguada e reabastecer géneros frescos.

 Melville, no seu livro “Moby Dick”, refere : “Um não pequeno número de baleeiros procedia nos Açores, (...) para completar, com entroncados campesinos dessas ilhas, as suas tripulações (...)”.

E é assim que os picoenses optaram por esse tipo de emigração clandestina de “salto”, aproveitando bicos de pedra que a costa das ilhas lhes oferecia para saltarem para as pequenas embarcações que os transportavam para as baleeiras, onde as condições de trabalho eram precárias e mal remuneradas.

Após um ano a bordo desembarcavam quase sempre em New Bedford, daí partindo á procura dos locais onde por razões diferentes entendiam que se deveriam fixar.

Quantos porém seguiram a sua tarefa a bordo, em princípio motivados pelo gosto, pela vida do mar, acabando por lhes se reconhecida a sua brilhante carreira.

Mas houve ainda outros que nunca se desfizeram do sonho inicial de voltarem ás ilhas. E foram esses que começaram as primeiras tentativas da caça á baleia.

As canoas, embora seguindo as linhas das americanas, eram de maiores dimensões, aumentando a sua tripulação para sete homens.

Embora não simultaneamente, esta actividade acabou por se exercer em todas as ilhas dos Açores, mas foi nas ilhas do Faial e do Pico que esta faina se exerceu com maior incidência e por pouco mais de um século.

É essencialmente na costa sul do Pico que a caça se desenvolve em actividade de cariz profissional. Só nas Lajes do Pico, formaram-se sete companhias.

Podemos falar num só período de baleação  de 1870 a 1982, embora com duas fases. Uma de 1870, a sensivelmente 1925/1930, em que prevaleceu a uma matriz do tipo cooperativo, ou seja os baleeiros caçavam os cetáceos rebocavam-nos nos botes a remos ou á vela, derretiam-nos em terra e comercializavam os seus produtos, nomeadamente: óleos, farinhas e âmbar.

Numa segunda fase de 1925/30, surgiu a ideia que o sócio da “armação baleeira” podia ser não baleeiro.

Entre outros podemos dizer que nas Ribeiras surgiram os Medinas, na Calheta o Capitão Anselmo, em São Roque os Cristianos, na Horta o Samuel e George Dabney. Tratava-se de verdadeiros empresários desta actividade.

Surgem assim durante os anos vinte as primeiras lanchas a motor (as gasolinas) muito rudimentares, destinadas ao reboque dos botes e dos animais, aliviando o cansaço e ocupação dos baleeiros.

Mas é no final da década de trinta que se instalam as fábricas da baleia e surgem as actuais lanchas da baleia com potentes motores, mas sempre conhecidas por gasolinas.

Assim se distinguem no Cais do Pico José Cristiano de Sousa, dando origem ás Armações Baleeiras Reunidas Lda., com actividades em S. Mateus, Calheta, Porto do Comprido no Faial, Graciosa, São Jorge e na Terceira. Sem duvida o maior armador baleeiro dos Açores. No Faial a sociedade Reis & Martins Lda..

Os melhores portos posicionados destas três ilhas do triângulo foram sem dúvida os do Porto-Pim, Comprido(Capelo) e do Salão, no Faial. Em São Jorge o do Topo e no Pico o da Calheta de Nesquim.

Mas com a erupção do vulcão dos Capelinhos em 1957, é destruído um importante porto baleeiro, o do Comprido e aí a actividade sofreu o seu primeiro golpe, pois um fortíssimo surto emigratório para os Estados Unidos da América, com o estatuto de sinistrados.

De seguida surge um promissora actividade piscatória: a pesca do atum.

São feitas as primeiras traineiras. E aqui não podemos deixar de referir o seu pioneiro: o mestre João Alves, das Ribeiras. São construídas as primeiras fábricas da conserva e esta actividade entra em marcha de ponta o que contribui fortemente para a desmotivação dos nossos marítimos para a caça á baleia.

Advinha-se o fim desta actividade. Na Calheta de Nesquim foi reduzida a frota baleeira a quatro botes e três lanchas (a “Medina”, a “Maria Manuela” e a “Nossa Senhora de Fátima”).

E o último golpe de uma actividade já moribunda foi dado com a ractificação pelo Decreto-Lei n.º 95/81, de 23 de Julho, da Conversação Relativa á Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa: a Convenção de Berna.

 

 

Actividade Baleeira: Tentativa de Conversão

É neste contexto que em 1987 o então Deputado Europeu Prof. Vasco Garcia, se deslocou ao Pico, reunindo armadores e baleeiros no sentido de se conjugarem todos os esforços para que a actividade fosse reconvertida em exploração turística: “... a fim de ser proporcionado ao turismo uma visão dos animais e do seu comportamento em cardume e/ou isolados, quando detectados pelo “vigias” tradicionais”.

Discutia-se os eventuais apoios comunitários para a nova actividade, eventuais indemnizações ao pessoal inactivo e para fazer face à degradação já existente há altura, do património baleeiro.

Razões houve, para que tal tentativa não vingasse. E não foi só o nosso património móvel e imóvel que se degradou quase totalmente. Mas também o verdadeiro património humano, formado por esses “lobos do mar”.

Podemos referir:

- Na Calheta de Nesquim os “Faidocas”, o “Machadinho”, o “Caçoilha”, os “Graxinhas”, o “Alfaiate”,   os “Rachas”, o Capitão José Medina, etc., etc..

- Nas Ribeiras, o “Folião”, os “Batatas”, o “Capão”, etc., etc..  

- Nas Lajes o “Tiaguinha”, os “Bogas”, o “Vintém”, o “Papuda”, o “Lélé”, os “Experientes”, etc.,   

- Em São Mateus o “Gatinho”, o “Chilica”, os “Silvinos”, etc., etc..

- No Cais do Pico os “Fula”, os “Caneca”, o “Peixe-Rei”, o “Pé-Leve”, etc.,etc.. 

- No Porto-Pim os “Cabritas”, os “Chá Preto”, o “Semilhas”, etc., etc..

- No Capelo o “Rosairinha”, o “Rafael”, os “Tocinhos”, o “António da Carolina”, o “Batata”, etc...

- No Salão os “Espadas”, o Rufino”, etc., etc..

- Nas Velas o “João Pão Quente”, o “Manuel da Josefa”, os “Nicomédes”, etc., etc..

- No Topo o “Manuel da Baleia”, o Augusto, o Oscar, etc., etc...

Na certeza porém que estes são apenas alguns e tão só alguns que de alma e coração exerceram de forma brilhante essa actividade e ainda hoje mesmo idosos mantêm sempre nas suas veias esse sangue baleeiro.

Na construção de lanchas e botes podemos relembrar os nomes de alguns construtores navais.                    

No que respeita às lanchas, temos:

-Mestre António da Fonseca, nas Lages do Pico, que construiu a primeira gasolina da baleia do Pico: a “Margarida”, em 1921 e de seguida a “Ribeiras”, em 1932 e a “Aliança”, em 1935.

-Mestre Janeiro (de seu nome Manuel José da Silveira), no Cais do Pico, com a construção das lanchas:

   -“Maria de Fátima”, em 1935;

   -“Maria Manuela”, em 1936 (em fase de restauro);

   -“Horizonte”, em 1936;

   -“Marota”, em 1938;

   -“Borboleta”, em 1941;

   -“Cachalote”, em 1943;

   -“Ladina”, em 1948.

   -“José Alexandre”, em 1954 (restaurada);

-Mestre Manuel Joaquim de Melo, em Santo Amaro do Pico, com a construção das lanchas:

   -“Cetáceo”, em 1948, (hoje ao serviço da J.A.P.H., já com outra configuração);

   -“Carapacho”, em 1946;

   -“Estrela Açoriana”, em 1942;

   -“Picarota”, em 1941.

-Mestre José Costa, em Santo Amaro, com a construção das seguintes lanchas:

   -“Espartel”, em 1948;

   -“Ilha Branca”, em 1949;

   -“Medina”, em 1950 (restaurada);

   -“Maria Medina”, em 1955;

   -“Garota”, em 1953 (restaurada).

-Mestre Manuel Maria Gambão, nas Velas de São Jorge, com a construção das seguintes lanchas:

   -“Açoriana”, em 1947 (restaurada);

   -“Walkiria”;

   -“Isolda”;

   -“Maria da Conceição”, em 1943;

   -“Cigana” (restaurada);

   -“Nossa Senhora de Fátima”, (já restaurada mas ainda sem motor e palamenta).

-Mestre Francisco Joaquim Machado, nas Lages do Pico; com a construção da seguinte lancha:

   -“Rosa Maria”, em 1953 (restaurada).

 

Na construção de botes, não podemos esquecer o ilustre lajense: Francisco José Machado, conhecido pelo “Experiente”, ao qual é atribuída a construção do primeiro bote baleeiro do Pico.

Outro lajense ligado á construção de botes foi o mestre António da Fonseca, com a construção de dezasseis botes.

Na freguesia das Ribeiras, os mestres da Aguada, os irmãos João e Manuel Oliveira.

 

 

Património Baleeiro: Seu Aproveitamento

Vamos apenas referir-nos ao património móvel e imóvel já que o mais valioso: o humano é-nos praticamente impossível de manter (embora convertido para uma actividade com outro objectivo). Por um lado foi o decurso da idade dos baleeiros mais antigos, por outro foi a situação a que se chegou, por não se ter aproveitado a conversão da actividade, como foi dito.

Quanto ao património móvel, recuperou-se algumas embarcações, nomeadamente gasolinas e botes, mas nem sempre se manteve fielmente a traça original.

Quanto ao património imóvel não podemos deixar de referir a transformação da antiga fábrica da baleia no Cais do Pico em Museu da Industria Baleeira. A criação do Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, em local marcadamente relacionado com a actividade – casa dos botes e tenda do ferreiro – e a concepção de um novo corpo adequado á finalidade museológica. O bom estado de conservação em que se encontra a Casa dos Botes da Calheta de Nesquim e das Ribeiras.

No Faial o recente aproveitamento da antiga fábrica da baleia, mantendo porém o seu equipamento original.

 

 

Objectivos do Projecto:

O projecto “Rota dos Baleeiros”, visa recuperar o mais religiosamente possível (embora cumprindo os actuais imperativos legais), parte do espólio baleeiro móvel e imóvel. Nesse âmbito, adquirimos recentemente uma das mais antigas e famosas lanchas baleeiras: a “Maria Manuela”, que se encontra em fase de restauro.  Seguidamente será recuperado um bote, mantendo-se os mesmos critérios de construção e materiais a utilizar que se adoptaram para a lancha.

Obviamente que os projecto “Rota dos Baleeiros” não se consubstancia apenas á recuperação e aproveitamento para fins marítimo-turísticos de uma gasolina e de um bote. Para que o projecto seja possível na sua total dimensão são necessários alguns pontos de apoio em terra. Mas para que se mantenha esta vertente de originalidade torna-se imperioso que esses pontos de apoio não sejam modernas lojas de venda a turistas, mas sim e sempre que possível antigas casas de botes ou outras construções relacionadas com actividade de então.

No Faial pensámos numa antiga casa dos botes junto ao porto do Comprido, no Capelo.

No que respeita ao Pico pensamos que tal recuperação não se coloca. 

O projecto “Rota dos Baleeiros” visa proporcionar além da eventual observação de cetáceos, uma visita a todos os portos onde se exerceu a actividade baleeira. Na ilha do Pico pretende-se alargar essa visita não só aos portos com também aos museus. Numa segunda fase e para que o programa abranja as ilhas do triângulo – como é seu objectivo – deverá incluir-se no roteiro um visita aos portos de São Jorge, relacionados igualmente com a actividade, nomeadamente o porto de Velas e o do Topo.

 

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